Jornalismo, verdade e democracia na era da inteligência artificial
por Paulo Markun.
Durante muito tempo, uma fotografia serviu como prova de que alguma coisa tinha acontecido. Uma gravação permitia reconhecer uma voz. Um documento podia ser examinado, confrontado com outros e, com algum trabalho, autenticado. Nada disso impediu a fraude: fotografias foram retocadas, documentos falsificados, testemunhas mentiram — a mentira é muito mais velha do que qualquer tecnologia digital.
O que a inteligência artificial mudou foram a escala, o custo e o acabamento da fabricação. Em poucos minutos se produz a fotografia de um acontecimento que nunca houve, se reproduz a voz de uma pessoa, se a coloca num vídeo dizendo o que jamais disse.
Talvez esse nem seja o efeito mais perturbador. Quando todos sabem que uma gravação pode ser fabricada, uma gravação verdadeira também pode ser descartada como falsa. O político flagrado numa conversa comprometedora e o governante confrontado com uma imagem inconveniente ganham uma defesa nova e cômoda: isso foi feito por inteligência artificial. Ao discutir os efeitos políticos e jurídicos dos deepfakes, Robert Chesney e Danielle Citron batizaram o fenômeno com precisão — liar’s dividend, o dividendo do mentiroso. Quanto mais convincente fica a falsificação, mais fácil fica negar a autenticidade da verdade (CHESNEY; CITRON, 2019).
Essa transformação chega justamente quando o jornalismo atravessa outra crise, e não das menores. O modelo econômico que durante mais de um século sustentou grandes redações encolheu a ponto de parecer agonizante: a publicidade migrou para as plataformas, a circulação do papel despencou, uma parcela crescente do público deixou de procurar diretamente jornais, emissoras ou sites de notícias. Mecanismos de busca e ferramentas de inteligência artificial passaram a entregar respostas construídas a partir do trabalho jornalístico sem necessariamente levar o usuário até quem descobriu a informação — e vêm conquistando esse público.
Não estamos apenas diante da crise de uma indústria, mas de uma pergunta mais antiga e mais importante: quem estabelece o que aconteceu?
Vale dizer desde já que ela nunca ficou sem resposta — o que muda, de época para época, é quem responde. Este artigo percorre essa troca de mãos. Começa desfazendo um mito de que o próprio jornalismo gosta: o de que sempre esteve a serviço da verdade. Não esteve. Nasceu tomando partido, serviu com frequência a quem pagava a conta, virou indústria e só então, pressionado pelo mercado e pela concorrência, começou a construir métodos para reduzir a inverdade — apurar, checar, atribuir, corrigir. Foi a resposta mais ambiciosa que deu à pergunta, e a que a internet desmontou por baixo, ao destruir o modelo de negócio que a sustentava. As redes acabaram com a intermediação e permitiram que qualquer um falasse para milhões, mas a desintermediação durou pouco: em poucos anos, meia dúzia de empresas passou a decidir o que chega a quem. Agora aparece um intermediário que não apenas distribui a resposta — ele a redige, com voz única e sem procedência visível. É aí que a pergunta do título fica outra vez em aberto.
Parte I — Quem pagava pela resposta
Durante séculos, a resposta à pergunta não veio de nenhum método: veio de quem tinha pago para saber, ou de quem tinha interesse em que se soubesse de determinada maneira.
Antes do jornal, a informação já era poder
Muito antes de a notícia se tornar um produto destinado ao público, informação já era mercadoria valiosa. Comerciantes e banqueiros que operavam a grandes distâncias dependiam de saber antes dos concorrentes se uma guerra havia começado, se uma frota chegara, se um soberano estava endividado. A casa dos Fugger construiu uma das redes mais impressionantes desse mundo: a coleção preservada em Viena, reunida por Octavian Secundus e Philipp Eduard Fugger entre 1568 e 1605, contém 27 volumes manuscritos, mais de 15 mil boletins e cerca de mil outros documentos, com notícias vindas de cidades europeias, mas também da América, do norte da África e da Ásia. Boa parte vinha de um mercado profissional de escribas que vendiam boletins a assinantes ricos. Política, guerras, crimes, cerimônias, religião e negócios já apareciam misturados nesse antepassado privado do noticiário (UNIVERSITÄT WIEN, s.d.).
A lógica começara a mudar décadas antes, quando a imprensa de tipos móveis permitiu que um relato atravessasse fronteiras a uma velocidade até então inimaginável. A carta em que Cristóvão Colombo anunciou em 1493 sua primeira viagem tornou-se um dos primeiros best-sellers da era impressa: 17 edições entre 1493 e 1497, algumas com xilogravuras que pretendiam mostrar o Novo Mundo, embora fossem em boa parte imagens imaginárias ou adaptações de paisagens mediterrâneas. O relato tornou Colombo famoso na Europa, ajudou a assegurar novo apoio da Coroa espanhola e abriu caminho para outras três viagens. A imprensa não apenas contava a expansão europeia: começava a participar dela (LIBRARY OF CONGRESS, s.d.).
Poucos anos depois, o Mundus Novus, atribuído a Américo Vespúcio, circulou ainda mais: 28 edições europeias entre 1504 e 1506, 14 delas só em 1505. O sucesso ajudou a fixar uma ideia extraordinária — aquelas terras eram um mundo novo, e não uma extensão da Ásia. Historiadores discutiriam a autenticidade de alguns relatos atribuídos a Vespúcio, mas o efeito editorial é inequívoco: a Europa começava a conhecer territórios distantes por narrativas impressas que misturavam observação, maravilhamento, interesse econômico e, não raro, exagero (PIEPER, 2014).
No fim do século XVI, a imagem entrou nessa construção. O gravador e editor Théodore de Bry nunca atravessou o Atlântico, mas sua coleção de viagens, iniciada em 1590 e continuada pelos herdeiros, reuniu dezenas de relatos e centenas de gravuras que ajudaram gerações de europeus a imaginar a América. Algumas partiam de desenhos de viajantes; outras reorganizavam o material segundo convenções e preconceitos europeus. Antes da fotografia e muito antes do deepfake, milhões de pessoas já formavam uma visão concreta de lugares que jamais haviam visto — pela mediação de alguém que também nunca estivera lá (VAN GROESEN, 2008).
Quando a colonização inglesa ganhou fôlego, essa capacidade de fabricar expectativas tornou-se deliberadamente comercial. A Virginia Company, responsável por Jamestown, o primeiro assentamento inglês permanente na América do Norte, de 1607, publicou 27 livros e panfletos promovendo o empreendimento. Em 1609 lançou uma campanha pública para vender ações, e textos como Nova Britannia apresentavam a colônia como oportunidade econômica, patriótica e religiosa. O contraste com a realidade era áspero: a mortalidade dos colonos permaneceu altíssima e as dívidas da companhia cresceram. Não é preciso chamar esses textos de “fake news” para reconhecer algo que nos acompanha até hoje — a representação de um lugar pode mobilizar dinheiro e pessoas antes que a experiência concreta tenha condições de corrigi-la (NATIONAL PARK SERVICE, s.d.; LIBRARY OF VIRGINIA, s.d.).
A história da informação, portanto, não nasce de uma separação limpa entre notícia e propaganda: surge já atravessada por interesses de Estado, comércio, religião e conquista. O que viria depois seria a lenta invenção de mecanismos para que uma versão pudesse ser confrontada com outra e, sobretudo, com algum registro do que efetivamente aconteceu.
Quando publicar um debate era quase uma revolução
Há um episódio na origem da imprensa política moderna que ajuda a colocar a questão em perspectiva. Em 1789, a Assembleia Nacional saída da Revolução Francesa consagrou um princípio que hoje parece banal — a publicidade dos debates parlamentares, que todos podemos acompanhar na TV Câmara e TV Senado, ao vivo. As sessões deveriam poder ser acompanhadas pelo público, e o princípio sobrevive na França até hoje: a própria Assembleia situa na Revolução a origem dessa regra (ASSEMBLÉE NATIONALE, s.d.a).
Abrir as sessões, porém, não resolvia tudo. Não havia rádio, televisão, internet nem transmissão ao vivo: quem não coubesse na galeria continuava sem saber exatamente o que seus representantes tinham dito. Foi esse espaço que a imprensa ocupou.
Um dos periódicos criados naquele momento foi o Journal des débats et des décrets, lançado em 29 de agosto de 1789. A descrição de si mesmo dizia a que vinha: relatar o que ocorrera nas sessões da Assembleia Nacional. O jornal atravessaria regimes e nomes — viraria Journal de l’Empire e, em 1814, Journal des débats politiques et littéraires (BIBLIOTHÈQUE NATIONALE DE FRANCE, s.d.).
Outros tentavam resolver o mesmo problema, com resultados desiguais. O Moniteur universel, lançado em novembro de 1789, especializou-se na descrição minuciosa das sessões, mas no início publicava muitas vezes o texto que o próprio orador entregava depois de descer da tribuna — e esse texto podia diferir, intencionalmente, do discurso pronunciado. Mirabeau chegou a alterar uma de suas falas para a publicação. Em 1791, o Journal logographique buscou mais fidelidade com um método quase artesanal: catorze registradores sentavam-se ao redor de uma mesa e se revezavam anotando o discurso, passando a tarefa ao vizinho quando ficavam para trás. A ambição declarada era produzir o retrato mais fiel possível da Assembleia — o que provocou protestos, inclusive porque retirava do orador parte do controle sobre a versão impressa de sua própria fala (ASSEMBLÉE NATIONALE, s.d.b).
Hoje tudo isso soa como uma etapa rudimentar da taquigrafia parlamentar. Naquele momento, fazia parte da própria Revolução. Registrar o que os representantes do povo diziam, e permitir que cidadãos ausentes da sala soubessem o que fora dito, transformava palavra política em informação pública e verificável: a frase pronunciada deixava de pertencer apenas ao orador e aos que estavam diante dele, e passava a poder ser examinada, comparada, contestada e cobrada depois. Décadas mais tarde, Jürgen Habermas faria da circulação pública de argumentos uma peça central de sua reconstrução da esfera pública moderna (HABERMAS, 1989). O que me interessa aqui é mais concreto: antes de discutir o poder, o cidadão precisava saber o que o poder tinha dito.
O nome Jornal de Debates reapareceria mais tarde no Brasil e, dois séculos depois da experiência francesa, voltaria a cruzar meu caminho. Falarei dele adiante.
A imprensa brasileira nasceu tomando partido
Também é enganoso imaginar que o jornalismo nasceu neutro e só depois se tornou partidário. No Brasil, por exemplo, aconteceu o contrário.
Até 1808, ter uma gráfica ou possuir livros era crime. A imprensa nasceu naquele ano, praticamente ao mesmo tempo, com dois modelos opostos. O Correio Braziliense, de Hipólito José da Costa, era editado em Londres, circulava clandestinamente e fazia crítica liberal à Coroa portuguesa. A Gazeta do Rio de Janeiro, impressa pela Impressão Régia — a primeira gráfica admitida no país, chegada com a corte no porão de um navio —, era o órgão oficial de dom João VI, submetido, como registra a Biblioteca Nacional, ao crivo de ministros e censores (BIBLIOTECA NACIONAL, s.d.a). Treze anos depois veio uma experiência diferente: o Diário do Rio de Janeiro, lançado em 1º de junho de 1821, foi o primeiro diário e, nas palavras de Nelson Werneck Sodré, o primeiro jornal propriamente informativo do país — de apoliticismo tão rigoroso que preferia publicar preços, crimes, espetáculos, marés e anúncios a entrar na disputa política, e chegou praticamente a ignorar a Independência (BIBLIOTECA NACIONAL, s.d.b; SODRÉ, 1999).
Dali em diante, jornais e pasquins se multiplicaram como extensões das disputas políticas. Na Bahia, A Idade d’Ouro do Brazil, de 1811, defendia a ordem monárquica; no Rio, A Estrela Brasileira promovia a política de dom Pedro I e O Spectador Brasileiro era nacionalista e defensor do imperador — exemplos do que se chamava de imprensa áulica, colada ao poder. Do outro lado surgiam folhas combativas: O Tamoyo, ligado aos Andradas, atacou o governo de dom Pedro I; Cipriano Barata publicou suas sucessivas Sentinelas da Liberdade, que o levaram à prisão mais de uma vez; mais tarde, O Repúblico, de Antônio Borges da Fonseca, enfrentou autoridades monárquicas e a imprensa conservadora, sustentando posições liberais e, em diferentes momentos, federalistas e republicanas. Aurora Fluminense, Nova Luz Brasileira, Tribuno do Povo, pasquins moderados, exaltados, restauradores, liberais e conservadores conviviam e se atacavam abertamente (BIBLIOTECA NACIONAL, s.d.c).
O leitor não comprava O Repúblico ou a Sentinela supondo estar diante de uma instituição sem posição política. Sabia quem falava e, em muitos casos, em nome de quais interesses. Notícia, opinião, propaganda e panfleto estavam misturados. A objetividade não foi, portanto, uma condição original do jornalismo: foi uma construção posterior.
Parte II — A invenção de um método
Em algum momento do século XIX, a pergunta deixou de ser respondida apenas por quem falava e passou a ser respondida pelo modo como se apurava. Foi a resposta mais ambiciosa que o jornalismo já deu — e é preciso examinar também onde ela falhou.
O jornalismo inventa um método
No século XIX, a expansão da imprensa comercial mudou essa lógica. Nos Estados Unidos, os jornais baratos da penny press precisavam vender para públicos maiores; o telégrafo tornou a transmissão cara e obrigou à concisão; e as agências passaram a abastecer jornais de orientações políticas diferentes.
Em 1846, cinco jornais de Nova York juntaram recursos para acelerar a chegada das notícias da guerra contra o México. Dessa associação nasceu a Associated Press. Uma cooperativa que fornecia a mesma informação a clientes adversários tinha razões comerciais muito concretas para concentrar seus despachos naquilo que todos pudessem publicar (ASSOCIATED PRESS, s.d.).
O caminho não foi linear rumo à sobriedade e à suposta isenção tão anunciada mais tarde. No fim daquele século, a guerra de circulação entre Joseph Pulitzer e William Randolph Hearst mostrou que exagero, espetáculo e campanha política também podiam ser excelentes negócios. A profissionalização posterior foi uma tentativa de responder a essas contradições.
A objetividade nunca poderia significar que jornalistas se tornariam seres humanos sem opiniões, interesses ou preconceitos. Seu valor estava em outro lugar: era um método. Ouvir mais de uma fonte, procurar documentos, identificar a origem da informação, separar notícia de comentário, dar ao acusado a oportunidade de responder, corrigir o erro, fazer perguntas a quem preferiria não respondê-las, exigir evidência proporcional à gravidade da afirmação. A verdade jornalística não era uma revelação; era uma construção que precisava poder ser verificada por outros. Michael Schudson mostrou que a objetividade é uma construção histórica, e não uma essência do ofício (SCHUDSON, 1978); Gaye Tuchman foi mais provocadora ao chamá-la de “ritual estratégico” — procedimentos que não eliminam a subjetividade do repórter, mas tornam visível como uma afirmação foi produzida e permitem contestá-la (TUCHMAN, 1972).
No Brasil, essa disciplina foi chegando aos poucos. O Correio da Manhã fez da reportagem e do enfrentamento ao poder parte de sua identidade. O Diário Carioca, no começo dos anos 1950, sistematizou técnicas como o lead. A reforma do Jornal do Brasil, iniciada em 1956 e aprofundada nos anos seguintes, transformou texto, fotografia, desenho gráfico e organização de redação — Alberto Dines entrou no jornal em 1962, portanto depois do começo dessa reforma, e criou novas estruturas profissionais de pesquisa e edição (BIBLIOTECA NACIONAL, s.d.d; s.d.e). Mas um dos primeiros impérios midiáticos, os Associados de Assis Chateaubriand tinha na manipulação uma das suas balizas.
Na década de 1980, a Folha de S.Paulo radicalizou a tentativa de dotar essas regras de um arcabouço racional, quase científico. Seu projeto editorial de 1984 defendia jornalismo crítico, pluralista, apartidário e moderno, e veio acompanhado do Manual da Redação; em 1989, o jornal criou o posto de ombudsman. Tornar públicas as regras tinha uma consequência relevante: o leitor ganhava critérios para cobrar o veículo que as proclamava (FOLHA DE S.PAULO, s.d.).
Nada disso tornou os jornais infalíveis.
Ter lado não é a mesma coisa que falsificar um fato
É importante fazer essa distinção justamente agora. Veículos jornalísticos continuam tendo posições políticas, econômicas e culturais, mesmo quando preferem não explicitá-las. Outros fazem questão de torná-las públicas.
A Gazeta do Povo mantém um conjunto de “Convicções” que, segundo o próprio jornal, expressa a visão que orienta suas decisões editoriais, e em 2017 decidiu publicá-las sistematicamente para que o leitor conhecesse os valores que influenciam sua cobertura (GAZETA DO POVO, s.d.). A Revista Oeste apresenta-se como veículo de jornalismo “conservador e liberal”, sustentado por assinaturas e publicidade (OESTE, s.d.). No outro lado do espectro, o Brasil 247 declara defender ideais progressistas, justiça social, multilateralismo e um projeto de desenvolvimento nacional (BRASIL 247, s.d.). E o ICL Notícias explicita que pretende dar prioridade aos setores mais desfavorecidos, esclarecendo também seu financiamento: portal e canal são sustentados pelo Instituto Conhecimento Liberta e, segundo sua linha editorial, não recebem monetização do YouTube nem publicidade no canal (ICL NOTÍCIAS, s.d.).
Não estou equiparando esses veículos, nem julgando a qualidade de seu jornalismo. O ponto é outro: ao ler qualquer um deles, sei quem está falando e posso investigar que valores, interesses, proprietários e formas de financiamento estão por trás daquela notícia. Isso é informação.
Dois veículos podem fazer leituras radicalmente diferentes de uma decisão do Supremo Tribunal Federal, mas não têm direito a escolher placares diferentes para o julgamento. Podem divergir sobre as consequências de uma inflação de 5%, mas não podem decidir que ela foi de 2% ou de 12% conforme a preferência política. Democracia precisa de divergência — e a divergência precisa acontecer sobre alguma coisa.
Quando uma versão publicada muda o curso dos acontecimentos
A criação de métodos de verificação nunca impediu que governos, empresas e os próprios jornais descobrissem o poder inverso da informação: uma versão publicada, mesmo manipulada ou falsa, produz consequências perfeitamente reais. Nem todos os episódios cabem na mesma categoria — há falsificações deliberadas, propaganda de guerra, exagero comercial e casos em que a imprensa simplesmente deixou de exercer a desconfiança que deveria defini-la. A diferença importa, porque ajuda a entender o que há de novo, e o que não há, na desinformação contemporânea. A distinção proposta por Claire Wardle e Hossein Derakhshan evita colocar tudo no mesmo saco: informação incorreta pode circular sem intenção de dano; desinformação é criada ou disseminada conscientemente para enganar (WARDLE; DERAKHSHAN, 2017).
Um dos exemplos mais límpidos ocorreu em 1870. Depois de um encontro relativamente cortês entre o rei Guilherme I da Prússia e o embaixador francês em Bad Ems, um telegrama relatando a conversa chegou a Otto von Bismarck. O chanceler, que desejava uma guerra capaz de unir os Estados alemães sob liderança prussiana, encurtou o texto antes de entregá-lo aos jornais. Não precisou inventar o encontro: suprimiu as passagens conciliatórias de tal forma que a nota passou a sugerir, aos franceses, a humilhação de seu embaixador e, aos alemães, uma exigência francesa intolerável. A França declarou guerra em 19 de julho, e a vitória prussiana abriria caminho para a criação do Império Alemão no ano seguinte. O Despacho de Ems é uma demonstração precoce de que editar o contexto pode ser tão eficaz quanto fabricar um fato (GERMAN HISTORY IN DOCUMENTS AND IMAGES, s.d.).
No fim do mesmo século, a imprensa de massa mostrou que também sabia transformar incerteza em certeza política. Quando o encouraçado USS Maine explodiu no porto de Havana, em fevereiro de 1898, a causa era desconhecida. Os jornais de Hearst e Pulitzer, que havia anos alimentavam o sentimento antiespanhol, publicaram rumores de sabotagem e histórias que se mostrariam falsas. O yellow journalism não causou sozinho a Guerra Hispano-Americana — havia interesses estratégicos e expansionistas muito mais amplos —, mas ajudou a criar um ambiente em que a hipótese da culpa espanhola circulou como conclusão antes que a investigação estabelecesse o que ocorrera (U.S. DEPARTMENT OF STATE, s.d.a).
A Primeira Guerra Mundial acrescentou a propaganda industrial à equação. Em abril de 1917, os jornais do grupo de lorde Northcliffe, entre eles o The Times e o Daily Mail, deram enorme circulação à história de que os alemães levavam os corpos de seus próprios soldados para uma fábrica onde seriam transformados em gordura, lubrificante, fertilizante e ração. A narrativa nasceu, em parte, de uma tradução interessada da palavra alemã Kadaver, usada no relato original para carcaças de animais, e ganhou o reforço de um suposto testemunho presencial. A “fábrica de cadáveres” era falsa, mas percorreu o mundo e tinha utilidade evidente: apresentar o inimigo como capaz de ultrapassar até os limites da humanidade. Desmoralizada depois da guerra, deixou um efeito colateral perverso — pesquisadores da propaganda britânica observam que a lembrança das atrocidades inventadas em 1914-1918 alimentou, anos depois, o ceticismo diante dos primeiros relatos verdadeiros sobre os crimes nazistas. Uma mentira de guerra ajudou a tornar uma verdade futura menos crível (NEANDER; MARLIN, 2010).
Poucas falsificações tiveram vida tão longa quanto os Protocolos dos Sábios de Sião. O texto apareceu no Império Russo no começo do século XX como se registrasse uma conspiração judaica mundial, e era uma fraude, em larga medida copiada de uma sátira política francesa do século XIX que nem sequer tratava de judeus. Em 1921, o Times de Londres expôs a falsificação, mas o desmentido não interrompeu sua carreira: nos Estados Unidos, o jornal de Henry Ford, The Dearborn Independent, publicou 91 artigos inspirados nos Protocolos, reunidos depois em The International Jew, que circularam em pelo menos 16 línguas e alimentaram o repertório antissemita apropriado pelo nazismo. É uma lição menos confortável do que a ideia de que a verdade sempre vence: uma falsificação pode sobreviver à prova de que é falsa quando já foi incorporada a uma identidade política (UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM, s.d.a).
Os nazistas levaram essa lógica a outro patamar, porque não se limitavam a espalhar versões: fabricavam acontecimentos para que a propaganda tivesse um fato aparente a narrar -fake facts antes das fae News. Depois do incêndio do Reichstag, em fevereiro de 1933, o governo apresentou o episódio como parte de uma insurreição comunista que não existia e usou a ameaça para suspender a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e as garantias jurídicas, abrindo caminho para prisões em massa e para a consolidação da ditadura. Seis anos depois, na véspera da invasão da Polônia, homens da SS vestidos com uniformes poloneses encenaram um ataque à estação de rádio de Gleiwitz. No dia seguinte, Hitler apresentou a entrada das tropas alemãs como resposta a agressões polonesas, e o Escritório de Imprensa do Reich instruiu os jornais a evitar até a palavra “guerra”: deveriam dizer que a Alemanha apenas revidava. A invasão já estava planejada; a falsificação serviu para inverter os papéis de agressor e vítima (UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM, s.d.b).
Vale interromper a sequência para reparar no que ela tem de constante. Em nenhum desses casos a pergunta ficou sem resposta. Sempre houve alguém garantindo que aquilo havia acontecido — e esse alguém era, invariavelmente, quem tinha mais poder de publicar. O problema nunca foi a ausência de uma resposta. Foi a ausência de meios para conferi-la.
Em 1955, o Brasil teve pelo menos um episódio da mesma família, em plena campanha presidencial. A chamada Carta Brandi, atribuída ao deputado peronista argentino Antonio Jesús Brandi, apresentava João Goulart, candidato a vice na chapa de Juscelino Kubitschek, como participante de entendimentos com o peronismo para organizar “brigadas de choque operárias” e adquirir material na Fábrica Militar de Córdoba. Carlos Lacerda levou o documento à televisão em 16 de setembro; no dia seguinte, sua Tribuna da Imprensa e O Globo deram grande destaque à carta, a pouco mais de duas semanas da eleição. O Ministério da Guerra abriu inquérito, e a investigação acabaria demonstrando que a carta era apócrifa, produzida por falsários argentinos. Não impediu a vitória de JK e Jango, mas tumultuou a campanha — um exemplo brasileiro particularmente expressivo de documento sem autenticidade estabelecida transformado em arma política antes que a verificação terminasse. O historiador Rodolpho Gauthier Cardoso dos Santos mostra como a Tribuna fez da carta o centro de uma campanha antiperonista e antitrabalhista naquele ano (SANTOS, 2017).
Democracias também produziram episódios em que uma versão oficial frágil ganhou força porque a imprensa não conseguiu — ou não quis — recuperar a incerteza a tempo. Em agosto de 1964, destróieres norte-americanos relataram um segundo ataque de forças do Vietnã do Norte no Golfo de Tonkin. As dúvidas surgiram quase imediatamente, mas o governo Lyndon Johnson apresentou o episódio como fato consumado. Dois dias depois, o Congresso aprovou a Resolução do Golfo de Tonkin, que deu ao presidente margem para ampliar drasticamente a intervenção no Vietnã. Documentos e investigações posteriores demonstraram a fragilidade daquele relato (U.S. DEPARTMENT OF STATE, s.d.b).
Oito anos depois, Watergate ofereceu o contraponto que fixaria no imaginário profissional a imprensa como fiscal do poder. O arrombamento da sede do Partido Democrata, em junho de 1972, poderia ter permanecido como episódio menor, como tentou tratá-lo a Casa Branca. O Washington Post insistiu: Bob Woodward e Carl Bernstein ligaram os invasores ao comitê de reeleição de Richard Nixon, cultivaram fontes, cruzaram documentos e prosseguiram sob ataques do governo, com respaldo do editor Ben Bradlee e da publisher Katharine Graham. A história virou filme — e é justamente por isso que convém não transformá-la em lenda corporativa. FBI, Justiça, promotores, a comissão do Senado e, afinal, as gravações da própria Casa Branca foram decisivos para o processo que levou à renúncia de Nixon, em agosto de 1974. Michael Schudson chamou atenção para o “mito de Watergate”, a memória confortável segundo a qual dois repórteres derrubaram sozinhos um presidente (SCHUDSON, 1992), e estudos posteriores reforçam essa leitura (PERLOFF; KUMAR, 2022). Ainda assim, o episódio permanece exemplar pelo motivo oposto a Tonkin: diante do esforço do poder para reduzir um fato e controlar seu significado, parte da imprensa recusou a versão oficial e continuou verificando.
Em 1990, às vésperas da Guerra do Golfo, uma adolescente kuwaitiana identificada apenas como Nayirah contou diante de congressistas norte-americanos que vira soldados iraquianos retirar bebês de incubadoras e deixá-los morrer no chão. A imagem correu o mundo e foi repetida pelo presidente George H. W. Bush. Só depois se soube que a jovem era filha do embaixador do Kuwait em Washington e que sua participação fora organizada pela Hill & Knowlton, contratada por uma organização financiada pelo governo kuwaitiano no exílio; investigações posteriores não sustentaram a história na forma dramática em que fora apresentada. A fabricação da narrativa de guerra já podia ser terceirizada a profissionais de relações públicas (ABU-HAMAD, 1992).
O caso das armas de destruição em massa do Iraque, em 2002 e 2003, é diferente — e talvez por isso ainda mais útil. Não há evidência de que jornais como o New York Times soubessem que publicavam falsidades. O fracasso foi metodológico: informações de autoridades, serviços de inteligência, desertores iraquianos e grupos empenhados na derrubada de Saddam Hussein circularam num sistema em que fontes interessadas acabavam confirmando umas às outras. Em 2004, o próprio Times reconheceu que alegações controversas tinham sido publicadas sem as ressalvas necessárias e que reportagens alarmantes receberam mais destaque do que as matérias que as punham em dúvida. Não é preciso que um jornalista invente uma mentira para que o jornalismo ajude a propagá-la: basta que suspenda, diante de uma fonte poderosa ou de um consenso conveniente, a desconfiança que aplicaria a qualquer outra fonte (THE NEW YORK TIMES, 2004).
Esses episódios não formam uma linha reta, e tratá-los como equivalentes apagaria diferenças importantes. Bismarck manipulou deliberadamente um texto; a imprensa amarela converteu suspeitas em manchetes; a propaganda da Primeira Guerra deu credibilidade a uma atrocidade fictícia; o nazismo submeteu a imprensa a uma máquina estatal de falsificação; em Tonkin e no Iraque, instituições jornalísticas não revelaram a tempo as dúvidas que já existiam dentro do próprio poder. Em todos eles, porém, uma representação do mundo ganhou autoridade suficiente para influenciar decisões reais — e, quando isso acontece, guerras podem ser legitimadas, direitos suspensos e políticas públicas apoiadas numa realidade editada antes de chegar ao cidadão. A qualidade da mediação nunca foi, portanto, um problema apenas interno do jornalismo.
Deixo de lado, propositalmente, a Operação Lava Jato. É recente e relevante o bastante para ser conhecida de todos, e por isso mesmo não caberia aqui como mais um item de uma lista.
Parte III — A intermediação muda de mãos
Então veio a internet, e por um instante pareceu que a pergunta ia deixar de precisar de intermediário: qualquer cidadão passava a falar para milhões, sem pedir licença a redação nenhuma. O paraíso parecia estar logo depois da esquina. Liberdade, igualdade, fraternidade – e software livre. Não foi o que aconteceu. Os intermediários mudaram — e a conta da apuração mudou de dono.
A promessa da internet — e o Jornal de Debates
No começo deste século, parecia que a internet ampliaria extraordinariamente esse confronto. Eu também acreditei nisso. Em 2006, recriei com meu filho e parceiro, Pedro Markun, o Jornal de Debates.
O nome tinha uma longa história. Depois do precedente francês, um Jornal de Debates surgiu no Rio de Janeiro em 1946, na redemocratização que se seguiu ao Estado Novo. Sua carta de princípios defendia espaço para correntes divergentes e recusava ataques pessoais, sob uma máxima excelente: “ideias só se destroem com ideias”. Discutiu parlamentarismo e reforma agrária, igualdade entre homens e mulheres, a luta pelo petróleo, o metrô no Rio e as consequências sociais da energia atômica. Teve novas fases e, nos anos 1970, ressurgiu em São Paulo com perfil de esquerda democrática — cheguei a colaborar brevemente com ele em 1975, quando trabalhava no Opinião.
Trinta anos depois, Pedro e eu achamos que aquele princípio tinha finalmente encontrado sua tecnologia. Na internet não havia o limite físico do papel, e o leitor podia deixar de ser apenas leitor: qualquer usuário cadastrado publicava argumentos, respondia, replicava. Três temas semanais eram escolhidos combinando votação do público e curadoria editorial.
Os números iniciais pareciam confirmar o entusiasmo: nos primeiros nove meses, mais de 2 milhões de visitantes únicos, cerca de 10 mil usuários cadastrados e aproximadamente 300 temas discutidos; entre 2006 e 2013, quase 12 milhões de páginas visitadas e cerca de 5,8 milhões de novos usuários. A experiência começou no iG e, quando assumi a presidência da Fundação Padre Anchieta, em 2007, entreguei a direção a Pedro, que manteve o projeto depois de encerrado o apoio financeiro do iG e o levou para o UOL (MARKUN, 2026).
O problema mais interessante, contudo, não foi financeiro. Abrir a porta para todos não produziu automaticamente uma praça pública governada pela razão: algumas vozes passaram a dominar as discussões e outras se afastaram, e os grupos tendiam a confirmar as próprias certezas. O que dava clique já era o fora da caixa, como a fotomontagem da deputada Heloísa Helena seminua numa capa da revista Playboy. A abundância de espaço não eliminava a pressão da maioria nem o desejo humano de conversar principalmente com quem concorda conosco.
A internet derrubou mesmo uma barreira importante — qualquer cidadão passou a poder falar para milhares ou milhões de pessoas. Mas erramos ao imaginar que isso eliminaria a intermediação. Os intermediários apenas mudaram: a ágora ganhou um algoritmo. Estudando o ecossistema político norte-americano, Yochai Benkler, Robert Faris e Hal Roberts mostraram que redes digitais não eliminam a propaganda — podem formar circuitos em que veículos, plataformas e públicos se confirmam mutuamente e recompensam a consonância interna mais do que a verificação externa (BENKLER; FARIS; ROBERTS, 2018). O caso americano não se transpõe mecanicamente ao Brasil, mas ajuda a explicar por que multiplicar vozes não amplia necessariamente o contato entre vozes diferentes.
O dinheiro saiu do jornalismo
Pode parecer que aqui trocamos de assunto — que saímos da verdade e entramos na contabilidade. Não trocamos. Apurar custa dinheiro, e quem paga a apuração é quem sustenta a resposta. Os números a seguir descrevem, em exemplares e em pontos percentuais, o desmonte do arranjo econômico que por um século bancou a única resposta construída por método.
Facebook, Google, YouTube, Instagram, TikTok e outras plataformas não precisavam financiar grandes redações para disputar a publicidade. Possuíam algo comercialmente ainda mais poderoso: dados sobre os consumidores e a capacidade de entregar anúncios diretamente a públicos selecionados. O dinheiro acompanhou a atenção.
No Brasil, o tamanho da mudança pode ser medido na circulação impressa. Em 2015, os 13 jornais tradicionais acompanhados em levantamento do Poder360, com dados do Instituto Verificador de Comunicação e da PwC, somavam 1.335.373 exemplares por dia. Em 2025 restavam 205.610 — queda de aproximadamente 84,6% em dez anos. E a retração não está desacelerando: só entre 2024 e 2025 a circulação conjunta caiu de 304.857 para 205.610 exemplares diários, uma perda de 32,6% em um único ano, com 11 dos 13 títulos em baixa. O Estado de S.Paulo recuou 59,9%; O Globo terminou 2025 com 43.888 exemplares impressos; Zero Hora, com 28.879; o Valor Econômico, com 10.853. Folha e O Tempo foram as duas exceções do ano (PODER360, 2026).
A publicidade conta a mesma história. O Cenp-Meios registrou R$ 26,3 bilhões em compra de mídia por 339 agências em 2024: a televisão ficou com 42,4% desse volume e a internet com 39,8%. Aos jornais couberam 1,4%; às revistas, 0,4% (CENP, 2025).
Há exceções espetaculares. No segundo trimestre de 2026, o New York Times tinha cerca de 13,35 milhões de assinantes, dos quais 12,8 milhões exclusivamente digitais; o papel respondia por aproximadamente 550 mil (U.S. SECURITIES AND EXCHANGE COMMISSION, 2026). Mas não existe um New York Times em cada cidade. O Atlas da Notícia registrou em 2025 nada menos que 2.504 municípios brasileiros sem nenhum veículo jornalístico — 45% das cidades do país, onde vivem 20.668.485 pessoas (ATLAS DA NOTÍCIA, 2025).
Quando um jornal local desaparece, não acaba apenas um produto. Pode sumir o repórter que acompanha a Câmara de Vereadores, o que pergunta por que a obra dobrou de preço, o que vai ao hospital municipal, o que lê o Diário Oficial todos os dias, o que sabe que determinada licitação está ligada a uma família política local. A crise do negócio acaba se tornando uma crise de fiscalização.
Parte IV — Quando quem responde é o poder
Antes de chegar ao presente, um desvio necessário. Há um regime em que a pergunta tem dono único: quando o Estado decide sozinho o que aconteceu, não é a opinião que ele precisa controlar — é a descrição. Dois episódios da ditadura brasileira mostram o que isso custa e o trabalho que dá para reverter. Eles explicam por que insisto tanto em procedência.
O jornalismo pode falhar — e o poder sabe disso
Essa história mais longa da manipulação não autoriza, por contraste, a idealização da imprensa profissional. Os grandes jornais brasileiros apoiaram majoritariamente o golpe de 1964, e o próprio Globo reconheceu décadas depois que seu apoio editorial havia sido um erro (FOLHA DE S.PAULO, 2013). Nos Estados Unidos, a Fox News concordou em pagar US$ 787,5 milhões à Dominion Voting Systems para encerrar um processo envolvendo falsas alegações sobre fraude na eleição de 2020 (BAUDER; CHASE; MULVIHILL, 2023).
Jornalismo profissional não é, portanto, garantia automática de verdade nem de democracia. Mas existe aqui uma assimetria importante: democracias podem conviver com jornais ruins, parciais ou mesmo desonestos, enquanto ditaduras têm dificuldade muito maior de conviver com jornalismo independente. A razão não está numa superioridade moral dos jornalistas — está na natureza do poder autoritário, que precisa controlar não apenas o que se pode opinar sobre os acontecimentos, mas a descrição dos próprios acontecimentos.
A ditadura brasileira oferece dois exemplos especialmente claros.
A epidemia que não podia existir
No início dos anos 1970, São Paulo enfrentou uma epidemia de meningite meningocócica, e o governo militar decidiu impedir durante anos que a dimensão do problema chegasse ao público. A Fiocruz registra que a ditadura ocultou a epidemia entre 1970 e 1974 e censurou jornais. Enquanto a doença se concentrava nas áreas mais pobres, a ocultação se manteve; quando alcançou as regiões centrais e as camadas médias, o silêncio ficou insustentável (FIOCRUZ, s.d.). Já era repórter, mas os jornais estavam proibidos de publicar uma só linha sobre o assunto.
A doença, naturalmente, não obedecia à censura. Em 1974, o município de São Paulo registrou 12.307 casos, incidência de quase 180 por 100 mil habitantes e média de 33 novos casos por dia (MORAES; BARATA, 2005). A situação no Hospital Emílio Ribas dá carne à estatística: com cerca de 300 leitos, o hospital chegou a ter 1.300 pacientes internados — em macas, em colchões no chão, até sobre pias. Segundo relato histórico do Conselho Regional de Medicina de São Paulo, enquanto isso “nenhuma linha” aparecia nos jornais sobre a epidemia, os doentes e as mortes (CREMESP, 2015).
A pressão rompeu o bloqueio em 1974. O Senado registra que a censura chegou a impedir uma entrevista do próprio ministro da Saúde à Veja e que a falta de transparência contribuiu para a desinformação da população. Os números de mortes daquele período continuam imprecisos justamente porque a informação foi tratada como ameaça política (SENADO FEDERAL, 2020).
É um exemplo quase didático da diferença entre realidade e versão oficial. O governo podia censurar a palavra epidemia, mas não podia impedir o meningococo de circular. O fato continuava existindo mesmo quando desaparecia do jornal.
Pouco mais de um ano depois, a mesma lógica seria aplicada à morte de um jornalista, meu amigo e chefe Vladimir Herzog.
A verdade que mil jornalistas tiveram de pagar para publicar
Herzog morreu no DOI-Codi do II Exército, em São Paulo, em 25 de outubro de 1975. A ditadura informou que ele havia cometido suicídio e produziu uma fotografia para sustentar a versão. Décadas depois, o autor da imagem contaria como a fez: Silvaldo Leung Vieira tinha 22 anos e duas semanas de curso de fotografia no Instituto de Criminalística quando foi chamado a registrar o corpo, permaneceu menos de quinze minutos no local e estranhou, ali mesmo, um enforcado cujos pés encostavam no chão. Ele voltou ao prédio do DOI-Codi em 27 de maio de 2013, acompanhado da comissão da verdade da Câmara Municipal de São Paulo, para reconstituir o que tinha visto (CÂMARA MUNICIPAL DE SÃO PAULO, 2013).
O detalhe mais revelador é que a versão precedeu a investigação. No próprio dia da morte, o Comando do II Exército já registrava a tese do suicídio. Cinco dias depois, a portaria que instaurou o Inquérito Policial Militar determinava investigar, literalmente, “as circunstâncias em que ocorreu o suicídio” de Vladimir Herzog. Não dizia morte: dizia suicídio. A conclusão estava embutida na pergunta (COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO, s.d.).
O IPM foi concluído em 12 de dezembro e divulgado no dia 19. No sábado, 20 de dezembro, os principais jornais de São Paulo e do Rio publicaram integralmente suas conclusões, que confirmavam a versão oficial (INSTITUTO VLADIMIR HERZOG, s.d.a). Todos os depoimentos que relatavam torturas e maus tratos, como o que dei ao general que comandava a investigação foram distorcidos. O jornal Folha da Tarde, do mesmo grupo que edita da Folha de S. Paulo publicou a íntegra dos documentos sob a manchete “Desbaratada a gangue do nazismo vermelho”. A empresa nunca pediu desculpas.
Advogados ligados à Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo examinaram o inquérito, e jornalistas transformaram as contradições e omissões num manifesto: “Em Nome da Verdade”. As primeiras 467 assinaturas foram encaminhadas à Justiça Militar em janeiro de 1976, e a mobilização continuou em outras cidades até chegar a 1.004 jornalistas.
Veio então uma ironia extraordinária: nenhum dos grandes jornais quis publicar a íntegra do documento como notícia. Os próprios jornalistas recolheram dinheiro e, em 3 de fevereiro de 1976, O Estado de S.Paulo publicou o manifesto e os 1.004 nomes como matéria paga (INSTITUTO VLADIMIR HERZOG, s.d.a). Foi preciso pagar a um jornal para contestar uma versão oficial que os jornais haviam acabado de reproduzir.
O episódio é também uma advertência contra a narrativa confortável segundo a qual “a imprensa” enfrentou a mentira da ditadura. Partes dela enfrentaram, outras se acomodaram, algumas fizeram as duas coisas em momentos diferentes. Mas a verdade sobre Herzog foi se impondo por uma operação reconhecível: examinar documentos, detectar contradições, recolher testemunhos, preservar provas, insistir em perguntas e não aceitar a autoridade do Estado como prova de que o Estado dizia a verdade.
Em 1978, a Justiça Federal responsabilizou a União pela prisão ilegal, tortura e morte do jornalista. Em 2013, seu atestado de óbito foi finalmente retificado para registrar que ele morreu em consequência de lesões e maus-tratos sofridos no DOI-Codi (INSTITUTO VLADIMIR HERZOG, s.d.b).
Foi trabalhoso, demorado e imperfeito. Mas foi um método de estabelecimento dos fatos.
A democracia precisa de um chão
Democracia não exige consenso. Ao contrário: ela existe porque pessoas e grupos discordam. Podemos discutir se uma política econômica foi boa ou ruim, mas precisamos poder medir a inflação. Podemos discordar sobre a responsabilidade política por uma manifestação, mas o número de mortos não deveria variar conforme a ideologia de quem conta. Podemos defender ou condenar uma decisão judicial, mas o resultado da votação precisa ser o mesmo no jornal de esquerda e no jornal de direita.
A opinião começa exatamente onde termina aquilo que conseguimos estabelecer de maneira factual. Hannah Arendt formulou essa distinção de maneira especialmente útil: opiniões podem divergir legitimamente, mas dependem de uma realidade factual comum que não pode ser convertida em mera questão de preferência (ARENDT, 1967). Esse terreno comum sempre foi imperfeito — e agora está ficando tecnicamente mais instável.
Parte V — Quem responde agora
Todas as respostas anteriores tinham um endereço: um pagador, um registro, uma redação, um Estado. Sempre foi possível perguntar de onde vinha a informação e quem ganhava com ela. A resposta que se firma agora não tem endereço visível — e não esteve no lugar dos acontecimentos.
O público mudou de endereço
O Digital News Report 2026, do Reuters Institute, mede a velocidade da transformação. Pela primeira vez, na média dos 48 mercados pesquisados, redes sociais e plataformas de vídeo superaram as formas tradicionais de acesso às notícias, chegando a 54%; sites e aplicativos jornalísticos ficaram em 51% e a televisão em 52%. Isso não significa que o jornalismo desapareceu — parte considerável do que circula nas plataformas ainda é produzida por redações. Mas a porta mudou, e quem controla a porta ganha poder sobre a relação com o público. Enquanto isso, a confiança geral nas notícias caiu para 37%, o menor nível da série iniciada em 2015, e 42% dizem evitar notícias pelo menos ocasionalmente, contra 29% em 2017 (EGAN et al., 2026).
Agora surge um intermediário ainda mais radical: o chatbot.
Quando abro uma reportagem da Folha, da Gazeta do Povo, da Oeste, do Brasil 247 ou do ICL, sei quem publicou, quem escreveu e qual é a linha editorial. Num chatbot, tudo isso tende a desaparecer: dezenas ou centenas de fontes chegam ao usuário transformadas numa única voz. A fala de uma fonte primária, uma reportagem baseada em meses de apuração, o comunicado de uma assessoria interessada e a opinião de um colunista podem ser reorganizados no mesmo tom seguro e fluente — e qualquer mentira deslavada pode ser apresentada com ares de realidade.
A máquina parece saber. Mas não esteve lá. Não encontrou a testemunha, não recebeu o documento clandestino, não passou três meses tentando fazer alguém falar. Não estava no Hospital Emílio Ribas em 1974 nem leu o IPM de Herzog porque desconfiava da conclusão. Trabalha, em grande parte, sobre vestígios que alguém produziu e preservou.
Mesmo assim, seu uso cresce. Em 2026, 10% dos entrevistados pelo Reuters Institute disseram usar chatbots semanalmente para obter notícias, com adesão maior entre os menores de 35 anos. O uso mais frequente é justamente o que torna a ferramenta tão atraente: 42% fazem perguntas sucessivas. E, embora a confiança geral nas notícias dadas por chatbots seja de apenas 20%, entre quem já os utiliza ela sobe para 44% (EGAN et al., 2026). Conveniência, como se vê, convive perfeitamente com desconfiança.
A máquina também ameaça quem paga pela descoberta
Durante anos, os veículos perderam publicidade para as plataformas, mas ainda recebiam delas audiência: o Google mostrava um link, o leitor clicava, o jornal obtinha alguma receita. Os sistemas de resposta por inteligência artificial começam a romper essa troca — se a ferramenta consulta vinte páginas e oferece uma síntese satisfatória, o leitor talvez nunca visite nenhuma delas.
O Reuters Institute informa que o tráfego orgânico do Google para mais de 2.500 sites caiu 33% entre novembro de 2024 e novembro de 2025 — com uma ressalva que o próprio instituto faz questão de registrar: não é possível saber quanto dessa queda decorre especificamente dos resumos de IA. Ainda assim, os 280 dirigentes de mídia ouvidos para seu relatório de tendências esperam uma redução média de 43% no tráfego de busca nos próximos três anos (NEWMAN, 2026).
A equação é desconfortável. Alguém paga ao repórter para descobrir a informação. A informação é publicada. Uma máquina a incorpora a uma resposta. E o público recebe o resultado sem saber quem pagou pela descoberta original. A sobrevivência do jornalismo passa a ser, assim, uma questão de infraestrutura da verdade: quem financiará a produção do fato novo se o valor econômico ficar cada vez mais com quem o resume?
Quando tudo pode ser falso
O problema econômico é grave; o problema da prova talvez seja maior. A inteligência artificial tornou extremamente barata a fabricação da mentira e, no mesmo movimento, quase gratuita a negação da verdade. É o dividendo do mentiroso. Se uma voz pode ser clonada, uma gravação autêntica pode ser denunciada como clonagem. Se um vídeo pode ser gerado, o vídeo verdadeiro pode ser chamado de deepfake. Se uma fotografia não prova mais por si só que algo aconteceu, é preciso provar também a procedência da própria fotografia.
É significativo que a Justiça Eleitoral brasileira tenha sido obrigada a entrar nesse terreno. As regras para 2026 estabeleceram restrições ao uso de conteúdo sintético e de IA na propaganda eleitoral e, em 1º de setembro de 2026, o TSE precisou definir juridicamente o que caracteriza um deepfake: conteúdo produzido ou manipulado por IA, dotado de realismo ou verossimilhança, destinado a criar, reproduzir ou alterar imagem, voz ou manifestação de uma pessoa — desde que inserido no contexto de propaganda eleitoral, para a incidência daquela vedação (TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL, 2026).
Há alguns anos, tribunais julgavam se uma declaração era verdadeira ou falsa. Agora precisam decidir também se a pessoa que aparece fazendo a declaração chegou algum dia a fazê-la.
Talvez a IA obrigue o jornalismo a voltar ao jornalismo
Há um dado curioso no meio desse cenário. Quando o Reuters Institute perguntou a 280 dirigentes de empresas de mídia de 51 países onde pretendiam concentrar esforços em 2026, a resposta não foi “produzir mais textos” — foi quase o contrário. A diferença entre os que pretendem fazer mais e os que pretendem fazer menos investigação e reportagem no terreno é de 91 pontos percentuais; para análise e explicação contextual, 82 pontos; para histórias humanas, 72. Os mesmos executivos pretendem reduzir conteúdo genérico, jornalismo de serviço e material permanente facilmente comoditizável por chatbots (NEWMAN, 2026).
Espero que seja uma correção de rumo. Durante boa parte da transformação digital, os veículos reagiram à internet produzindo mais, mais depressa e a custo menor — e a IA faz isso melhor. Restará então produzir o que não estava disponível para a máquina: ir ao lugar, encontrar a pessoa, abrir a planilha, pedir o contrato, descobrir o documento que ainda não está na internet, perguntar quem ganha com determinada versão, ouvir quem ainda não foi ouvido.
Uma inteligência artificial pode resumir em dez segundos uma investigação que levou três meses. Mas não pode resumir uma investigação que ninguém fez. Quanto mais barata se torna a produção de informação, mais valiosa fica a produção de evidência.
Isso não significa manter a inteligência artificial longe do jornalismo. Acho que significa exatamente o contrário.
Eu já vinha tentando conversar com o passado
Daqui em diante o artigo muda de escala, não de assunto. Passo a falar do que fiz, e não porque a experiência pessoal valha mais do que os dados: é que foi tentando usar essas ferramentas que topei com a forma mais nua da pergunta do título. Quando uma máquina faz Vladimir Herzog falar, alguém precisa poder perguntar: quem garante que ele disse isso? A resposta que eu der aí é do mesmo tipo que os jornais franceses de 1789 tentavam dar, e vale exatamente o que valerem as fontes por trás dela.
Minha experiência de usar tecnologia para aproximar presente e passado começou muito antes dos IAvatares. Em 2001, realizei AI-5 — O Dia que Não Existiu, documentário que reconstruía a sessão da Câmara dos Deputados de 12 de dezembro de 1968, quando os parlamentares negaram autorização para processar Márcio Moreira Alves — decisão usada no dia seguinte como uma das justificativas políticas para a decretação do AI-5.
Havia ali um problema de memória quase material: o Congresso foi fechado e seu Diário Oficial não circulou. Os taquígrafos haviam registrado discursos, apartes e protestos, e essa documentação sobreviveu porque a funcionária Ana Lúcia Brandão guardou papéis dados como perdidos. O documentário misturava arquivos reais, depoimentos e uma reconstituição da sessão com atores.
A ligação com os jornais franceses de 1789 é quase involuntária: mais uma vez, o que estava em jogo era registrar o que os representantes do povo tinham dito. Duzentos anos antes, jornalistas se revezavam anotando discursos porque não existia gravação; no Brasil da ditadura, a documentação de uma sessão desapareceu justamente porque registrar a palavra política pode ser perigoso para quem pretende reescrever a história depois.
Mais tarde criei o Retrovisor: duas temporadas, 26 episódios. Na primeira, gravada no auditório da Biblioteca Mário de Andrade, entrevistei personagens históricos brasileiros representados por atores; na segunda, subi ao palco do Teatro Eva Herz para repetir a experiência com outros personagens. O formato era deliberadamente híbrido — um talk show ao vivo, com perguntas minhas e da plateia, depois transformado em série de televisão, exibida pelo Canal Brasil e pela TV Cultura. As respostas nasciam de pesquisa em jornais, biografias, cartas, entrevistas e documentos, com apoio de historiadores. Anita Garibaldi, Luís Gama, Euclides da Cunha, João Cândido, Prestes, Maria Lacerda de Moura, José Bonifácio, Nísia Floresta, Chiquinha Gonzaga, Joaquim Nabuco, André Rebouças e Floriano Peixoto estavam entre os entrevistados.
Ali havia uma convenção muito clara: eu entrevistava o personagem, mas todos viam o ator. O artifício estava diante do público, e não havia possibilidade razoável de imaginar que Luís Gama tivesse ressuscitado no palco da Biblioteca Mário de Andrade.
A inteligência artificial retirou exatamente essa camada protetora.
O Getúlio que respondia bem demais
Antes de chegar ao modelo atual dos IAvatares, fiz uma experiência que me ensinou bastante — pelos riscos que revelou. Criei o podcast Retrovisor IA — Getúlio Vargas, que continua disponível no Spotify, embora eu tenha decidido não divulgá-lo.
A ideia inicial parecia lógica: se já havíamos feito atores responderem como personagens históricos, por que não usar uma inteligência artificial treinada em documentos para imaginar como Getúlio Vargas responderia a questões contemporâneas? Perguntamos o que ele pensaria das cotas para negros nas universidades, quais seriam as opções políticas do PSD de Gilberto Kassab, o que diria sobre o fim da escala de trabalho 6 por 1.
O Getúlio artificial respondeu — e respondeu bem: convincente, razoável, compatível com o que sabíamos sobre Vargas. Foi justamente isso que me fez abandonar o caminho. Quanto melhor a máquina respondia, maior o problema.
Vargas morreu em 1954. Nunca conheceu cotas raciais nas universidades brasileiras como existem hoje, nunca ouviu falar de Gilberto Kassab, nunca participou da discussão sobre a escala 6 por 1. Aquelas respostas não eram memória: eram extrapolação. Podiam ser plausíveis, mas pertenciam ao algoritmo, não a Getúlio.
O fracasso foi produtivo, e a conclusão, simples: um personagem histórico não deve ser usado pela máquina para opinar sobre o futuro que não viveu. Daí nasceu uma das regras centrais dos IAvatares.
IAvatares: experimentar sem entregar a verdade à máquina
Pedro e eu passamos então a testar outro modelo, que chamamos de IAvatar — avatar informativo, uma representação conversacional de uma pessoa real baseada em inteligência artificial. Dois experimentos já estão operacionais: Vladimir Herzog e o arquiteto Fábio Penteado.
A diferença em relação ao Getúlio artificial é essencial. O prompt de Herzog circunscreve o que ele poderia saber até 25 de outubro de 1975; o de Fábio Penteado, o que está dentro de sua vida e de seu acervo. Perguntas posteriores ao limite cronológico são recusadas, as respostas se apoiam em bases documentais identificáveis, a natureza artificial da experiência precisa ficar explícita e a curadoria continua humana. O princípio é deliberadamente rigoroso: sem fonte, sem resposta.
Isso não elimina os riscos. A voz sintética de Herzog pode soar como Herzog, mas não é Herzog. Uma frase pode ser perfeitamente compatível com seus artigos, entrevistas e convicções e, ainda assim, se foi formulada pelo modelo, ele jamais pronunciou aquela combinação exata de palavras.
É aí que começa o problema ético. E não fomos os primeiros a encontrá-lo.
Mil perguntas a um sobrevivente — e nenhuma palavra inventada
A USC Shoah Foundation desenvolve há anos uma experiência chamada Dimensions in Testimony. Sobreviventes do Holocausto e testemunhas de outros genocídios são filmados durante longas entrevistas, e cada um responde a cerca de mil perguntas, gravadas separadamente. Anos depois, um estudante ou visitante de museu pergunta em linguagem natural; o computador interpreta, busca entre as respostas gravadas e apresenta a que melhor corresponde.
A sensação é de diálogo, mas há uma diferença fundamental: a máquina não escreve a resposta. Cada palavra apresentada foi efetivamente pronunciada pelo sobrevivente, e a própria fundação afirma que não edita, altera, manipula nem censura o que foi dito (USC SHOAH FOUNDATION, s.d.). É uma solução tecnologicamente sofisticada e, ao mesmo tempo, extremamente conservadora do ponto de vista histórico: a tecnologia escolhe o testemunho, mas não se apropria de sua voz para fabricar uma fala nova.
Um caso com Anne Frank mostra o perigo do caminho contrário. Em 2025, a plataforma educacional SchoolAI ofereceu um chatbot que representava personagens históricos, entre eles Anne Frank, com instrução para responder de maneira curta e permanecer “no personagem”. Quando alguém perguntou quem a havia matado, a resposta saiu incompleta e sem o contexto indispensável da responsabilidade nazista pelo Holocausto. A empresa reconheceu publicamente o problema e mudou o sistema, acrescentando salvaguardas e contexto histórico (SCHOOLAI, 2025).
Não era uma mentira espetacular, e sim algo mais instrutivo: uma resposta educada, plausível e insuficiente. O personagem estava bem representado; a História, não. Quando a persona vence o documento, uma tecnologia destinada a preservar a memória pode produzir desmemória.
Bucci e eu discordamos
O IAvatar de Vladimir Herzog levou esse problema para dentro de uma instituição cuja razão de existir é precisamente a defesa da memória e da verdade factual. O projeto foi autorizado por Ivo Herzog, filho de Vlado e presidente do conselho do Instituto, mas a apresentação presencial não foi chancelada naquele primeiro momento, devido à posição do conselheiro vitalício Eugênio Bucci.
Em novembro de 2025, a Folha de S.Paulo publicou lado a lado, na página de opinião, dois artigos. No meu, “IAvatares: quando a tecnologia serve à memória”, defendi que bases documentais rigorosas, transparência, limites cronológicos e finalidade educativa permitiam experimentar uma nova forma de acesso ao conhecimento histórico (MARKUN, 2025). Ao lado estava “Os fatos e nada mais”, de Bucci.
O argumento dele atinge exatamente o ponto mais vulnerável do projeto: se Herzog jamais pronunciou determinada frase, fazer essa frase soar em sua voz introduz fabricação num território cuja credibilidade depende justamente de distinguir o que aconteceu do que foi inventado. No caso de Herzog, a objeção ganha peso adicional, porque foram os fatos cuidadosamente reunidos que desmontaram a versão oficial de suicídio e permitiram responsabilizar o Estado (BUCCI, 2025).
É um argumento poderoso, e não considero produtivo enfraquecê-lo para defender o experimento. Ao contrário: a objeção de Bucci ajuda a explicar por que transparência, rastreabilidade, limite cronológico e curadoria humana não são detalhes técnicos, e sim condições da experiência.
Minha conclusão difere da dele porque não acredito que a resposta seja abandonar uma tecnologia que inevitavelmente será utilizada, e sim construir regras para usá-la. Se a voz é sintética, isso precisa estar claro. Se a frase foi gerada pelo sistema, não pode ser confundida com uma citação. Se há um documento que sustenta a informação, o usuário deveria poder chegar a ele. Se não há documentação, a máquina precisa dizer que não sabe. E se encontrarmos um erro, alguém de carne e osso deve ser responsável por corrigi-lo.
Ivo assistiu à apresentação, no Centro de Pesquisa e Formação do SESC São Paulo. O jornalista Fernando Morais, amigo de Vlado, ficou catatônico diante da voz que não ouvia havia 50 anos; Gabriel Priolli, que fora aluno e funcionário de Herzog na TV Cultura em 1975, chorou ao pedir a palavra. No fim do encontro, Ivo me confessou que três momentos tinham sido os mais marcantes nos 50 anos da morte do pai: o culto ecumênico na Catedral da Sé, sua própria entrevista ao Roda Viva e aquela apresentação.
A divergência não desapareceu, mas a experiência também não terminou: a circulação do IAvatar de Herzog passou a integrar o plano de atividades do Instituto Vladimir Herzog para 2027. Isso não significa que Bucci perdeu a discussão. Significa algo mais interessante — a discussão passou a fazer parte do experimento.
A IA também pode levar ao livro
Há usos muito menos controversos da mesma tecnologia. Pedro e eu estamos concluindo em Lisboa outro projeto que parte da mesma convicção: a inteligência artificial pode difundir conhecimento sem pretender substituir sua fonte. É o Lisbon Literary Map, apoiado pela Câmara Municipal de Lisboa e selecionado na modalidade digital do programa Lisboa, Cultura e Media, da EGEAC, com o nome Ecos de Lisboa (EGEAC, 2026). Mais de cem excertos literários de autores em domínio público estão sendo georreferenciados na cidade: o usuário chega a um ponto de Lisboa e ouve um texto relacionado àquele lugar, apresentado por vozes artificiais em cinco línguas — português, inglês, espanhol, francês e chinês.
A inteligência artificial participa da síntese de voz, da tradução e da interface multilíngue. Mas não escreve Eça de Queirós, não melhora Fernando Pessoa e não pergunta o que Cesário Verde diria sobre os turistas de 2026. O texto continua sendo do autor; a tecnologia apenas constrói uma nova passagem até ele.
Essa diferença me parece fundamental. O mapa quer ser porta de entrada para a leitura, não substituição do livro. E talvez haja aí uma regra mais geral: a melhor inteligência artificial aplicada ao conhecimento não é a que se coloca no lugar da fonte, mas a que nos ajuda a chegar até ela.
Preservar memória também é uma tecnologia
Quando penso hoje no Journal des débats de 1789 ou em seu sucedâneo brasileiro do século XXI, no AI-5 — O Dia que Não Existiu, no Retrovisor, no experimento fracassado com Getúlio Vargas, nos IAvatares e no mapa literário de Lisboa, identifico uma linha que não percebia quando fiz cada um desses trabalhos. Todos tratam, de maneiras diferentes, do mesmo problema: como fazer uma experiência do presente chegar ao futuro sem falsificá-la no caminho?
Os franceses inventaram formas de registrar o que um deputado dizia antes que a frase desaparecesse no ar. Ana Lúcia Brandão guardou os documentos de uma sessão da Câmara porque o registro oficial sumiu durante a ditadura. Mais de mil jornalistas assinaram e pagaram pela publicação de um documento porque a versão oficial da morte de Herzog havia sido transformada em notícia. Sobreviventes do Holocausto responderam a mil perguntas para que pessoas ainda não nascidas pudessem ouvi-los com suas próprias palavras.
Hoje produzimos uma quantidade de registros incomparavelmente maior. O paradoxo é que talvez tenhamos menos certeza sobre eles. A inteligência artificial amplia as duas possibilidades: pode falsificar a memória em escala industrial e pode ajudar a preservar, organizar, traduzir, pesquisar e tornar acessíveis acervos que permaneceriam esquecidos. A escolha entre elas não será feita pela tecnologia, e sim pelos critérios que construirmos para utilizá-la.
O que precisa sobreviver
Talvez não seja necessário salvar o jornalismo tal como o conhecemos. Empresas desaparecem, modelos de negócio envelhecem, tecnologias substituem tarefas, e o jornal impresso que dominou o século XX provavelmente nunca recuperará o lugar que teve. Mas alguma coisa precisa sobreviver a ele.
Uma sociedade precisa conservar a capacidade de estabelecer fatos verificáveis. Alguém precisa sair da tela e entrar no mundo: encontrar o contrato, localizar a testemunha, comparar versões, descobrir quem pagou, perguntar quem se beneficia, guardar o documento original, voltar ao local. Dizer o que se sabe — e também o que ainda não se sabe. E assumir publicamente a responsabilidade por uma afirmação. Esse trabalho pode continuar sendo feito por grandes jornais, pequenas organizações locais, jornalistas independentes, universidades, arquivos, museus e instituições que ainda não existem. E certamente será feito com inteligência artificial.
O futuro do jornalismo pode não estar apenas em produzir a informação que a IA ainda não consegue produzir. Talvez esteja em levar para dentro das máquinas alguns procedimentos que demoramos dois séculos para aprender: identificar a fonte, preservar a procedência, distinguir documento de interpretação, evidência de hipótese, citação de reconstrução, conhecimento de invenção. Isso exige mais do que experimentos isolados e declarações de intenção: demanda regulação, capacidade de coerção e acordos entre países numa escala inédita. A preocupação já escapou do campo profissional — o papa Leão XIV defendeu um tratado internacional vinculante para regular o desenvolvimento e o uso da IA; Yuval Noah Harari recolocou a tecnologia numa história mais longa das redes de informação e de sua relação com o poder; Bill Gates insiste em que os benefícios potenciais não dispensam governança para os riscos (FRANCISCO, 2024; HARARI, 2024; GATES, 2023).
No fundo, é a pergunta do começo, feita ao que vem por aí. Durante séculos ela teve resposta: quem pagava, quem registrava, quem apurava, quem detinha o poder de publicar. Nem sempre foram boas respostas, e algumas foram mentiras deliberadas. Mas havia sempre alguém a quem perguntar — um nome, uma redação, um interesse identificável, um documento que se podia exigir. O risco de agora não é a máquina mentir. É não haver ninguém que precise responder.
Não há uma fronteira pronta esperando para ser obedecida. Estamos tendo de construí-la enquanto a tecnologia avança — e ela avança mais depressa do que todos nós.
Nota: este artigo foi escrito por mim, com a colaboração intensa de mais de uma inteligência artificial.
Referências
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Ficha de cocriação
Autor
Paulo Markun
Mini bio
Jornalista, escritor e documentarista, Paulo Markun iniciou sua carreira em 1971. Foi âncora e diretor do Roda Viva, da TV Cultura, por dez anos, e presidiu a Fundação Padre Anchieta.
Processo de cocriação
Usei Gemini, Chatgpt e Claude no desenvolvimento do ensaio. Gemini para pesquisas mais profundas, Chatgpt para ajudar a estruturar as ideias e Claude para o acabamento.
Modelos de IA utilizados
Mais de um modelo de inteligência artificial, conforme informado pelo autor.
Imagem
Ilustração em desenho a lápis criada com IA, sob supervisão de André Stangl, para a Revista CrIA.
Licença
Creative Commons CC BY-NC-SA — Atribuição, Não Comercial, Compartilha Igual.